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Meu Kindle se chama Antônia: devaneios sobre hábitos de leitura

Resisti muito a comprar um e-reader. Apesar de muitas vezes duradouras, minhas resistências não costumam ser eternas. Frequentemente, a “cabeça-durisse” é compensada por uma tentativa de retratar publicamente o quão bom é aquilo que neguei por tanto tempo . E é disto que trata este post: uma reparação com os e-readers (no meu caso, leia-se Kindle).

Minha resistência ao Kindle lembra, por questões afeitvas, minha resistência ao filme “A excêntrica família de Antônia”. Lançado em 1995, o filme holândes ganhou de “O Quatrilho” o Oscar de melhor filme estrangeiro. A derrota no Oscar me causou profunda decepção. Não por gostar do Filme, que achei bem mais ou menos na verdade, mas por amar o livro. E neste misto de sentimentos que não encontra respaldo nos anais da crítica cinematográfica, acabei por me negar a assistir o filme holandês por um tempo. Até hoje não sei o que me fez baixar a guarda nacionalista ufanista (um dos poucos acessos deste tipo que tive na vida). O que quer que seja, sou grata, porque me apaixonei pelo filme holandês. Amei Antônia, sua coragem, e sua excêntrica família. A beleza do filme me fez sentir menos traidora de José Clemente de Pozenato (este senhor autor, que, por sua vez, era meu amigo imaginário).

Fonte da imagem: https://images.app.goo.gl/apaGwisr8tGU3EKi9

Sucumbir ao e-reader me causava semelhante sentimento: estaria eu traindo o livro impresso? Livro impresso este que em meus 44 anos de vida foi responsável por tantas realizações lúdicas, de auto-conhecimento e profissionais… Não que eu seja uma bibliotecária que associe biblioteca a publicações impressas. Nunca fui. Faz mais de 20 anos que sou convicta de que a virtualização dos acervos e o acesso aberto, mesmo que substituam a função da biblioteca como instituição mediadora de acesso, jamais tornarão imprescindível sua função como instituição educativa sobre competências informacionais e recursos cada vez mais complexos. Acho que o sentimento de culpa esta pegando: três parágrafos de introdução (Freud explica). Assim, vamos lá, o Kindle.

Sou daquelas leitoras que lê sempre, toda hora. Não que tenha lido muitos livros, sou lenta, reflexiva; às vezes, ainda, tenho dificuldade para me fixar em um único livro. Mas tenho que estar sempre lendo (ou escrevendo). Em fases sem rumo, acabo passando por páginas de diferentes títulos, numa busca meio desenfreada pelo livro adequado para aquele momento certo, aquele que combine de forma exata com o espírito da vez. Acontece de passar meses sem que algum título me prenda, deixo um rastro de dezenas de livros meio lidos. Com isso, ocorre que, com frequência, leio dispersivamente.

Compro muitos livros, leio sobre eles, acompanho discussões e resenhas, e gosto de escrever sobre livros também (nota-se por aqui). Com a Pandemia, mesmo cheia de livros não lidos em casa (ou meio lidos), o não-poder-passar na vitrine da Traça e da Londres, livrarias próximas à Biblioteca Central da UFRGS, os dias ficaram sem uma importante distração do mundo real. Um pequeno mal comparado a todos horrores da Pandemia, mas uma dificuldade especial  para leitores e livreiros neste período.

Comecei a seguir no Instagram diferentes editoras, permaneci atenta às minhas notificações automáticas da Estante Virtual. Mas, o que fazer? “Vou comprar um Kindle!” Fiz algumas sondagens sobre modelos com colegas. No dia seguinte, comprei.

Poucos dias depois da compra, o Kindle foi entregue. A abertura do pacote foi uma viagem à infância, a alegria de uma criança com um brinquedo novo. O primeiro livro, “qual seria o primeiro?” Escolhi “Sobre os ossos dos mortos”, da nobelista Olga Tokarczuk. E nossa, que boa escolha! Livro viciante, capaz de colocar à prova o conforto de leitura. O primeiro parâmetro do test drive ao qual submeti o Kindle.

Acostumada a ler artigos de periódico no computador e notícias de jornal no celular, ambos muito desconfortáveis em comparação ao impresso, o Kindle se mostrou completamente diferente: a tela sem brilho, a leveza que permite a leitura com apenas uma mão, o ajuste do tamanho de fonte e a luz embutida. Características particularmente importantes para atender às necessidades de leitura em madrugadas insones, que também foram uma marca deste meu período de Pandemia. Um outro aspecto de conforto especialmente importante para uma leitora dispersiva é ter centenas de títulos carregados neste pequeno dispositivo. Conforto de viagem ainda não testado por causa da Pandemia, mas muito aguardado. Ficava um bom tempo escolhendo os três livros para colocar na mochila, caso surgisse uma necessidade urgente e inesperada de leitura em pleno vôo (“piada” interna de leitores dispersivos). Conforto, teste vencido com sucesso.

O segundo teste foi a marcação e as notas. Tenho um estilo de aprendizagem tátil, preciso interagir com o texto, escrever o que estou pensando sobre o trecho, marcá-lo de forma a identificar depois rapidamente uma passagem (algo que já descrevi por aqui e que é a razão pela qual adquiro para mim os livros que gosto muito). Passou no teste. Uma interação menos tátil com o texto por não ser manuscrita, mas mais eficiente. As marcações e anotações são fáceis e otimamente recuperadas numa interface que possibilita uma boa visualização dos trechos grifados. Além disso, podemos enviar as marcações por e-mail, permitindo uma transposição manual para um gerenciador de referências. Uma vantagem excelente, que cria uma espécie de zona livre de digitação de citações. Ainda não é um fichamento automático, mas, certamente, é um fichamento facilitado.

O terceiro ponto de avaliação é o preço. Sobre ele também já falamos por aqui. A cotação a R$3,00 o dólar (aproximadamente) é uma constante na precificação do livro no Brasil, mesmo em períodos de crescimento econômico e valorização do real. Por outro lado, a virtualização do produto do mercado livreiro ainda não alterou seu método de precificação como ocorreu com a indústria da música e do cinema. Mesmo sem custos de impressão e com custos muito reduzidos de distribuição (infraestrutura de servidores de computador), às vezes o e-book é apenas um pouco mais barato ou até mesmo ainda mais caro do que o livro impresso. O mercado de e-books precisa urgentemente mudar seu modelo de negócio, precisa passar a ganhar em escala e não no alto preço por exemplar. Uma medida urgente para um país que precisa tanto melhorar seu nível educacional, previnindo a elitização da leitura e com um efeito colateral altamente favorável também para a indústria do livro: a diminuição drástica da pirataria (a exemplo do que ocorreu com músicas, filmes e séries).

Consegui algumas promoções muito boas no Kindle, o que, sob certo aspecto, pode ser visto como um ponto negativo também , considerando uma tendência recente de falência de livrarias e editoras (ver matéria). Para quem conhece bem o ecossistema do livro, há uma preocupação especial com os livreiros de bairro, que tradicionalmente são referências culturais importantes desenvolvidas a partir de fortes vínculos com suas comunidades (ver também matéria). Conhecem seus clientes, fazem indicações qualificadas e criam um ambiente social de promoção da leitura de alto impacto cultural. Na Amazon, o sistema de indicações é feito por algoritmo de computador, que, por mais eficiente que seja, não substitui o prazer da visita àquela livraria de seleção imperdível, com equipe que se move e se apaixona por livros como nós. Minha relação com a leitura seria completamente diferente não fossem as livrarias Humanas e Palavraria, com Vera e Adriana e com Carlos e Carla.

Fachada da McNally Jackson, de Nova York, adesivada para a campanha | © Redes Sociais da ABA

Apesar de serem altamente positivos dois dos quatro aspectos de avaliação da leitura no Kindle, não considero possível imaginar minha vida sem livros impressos. São pequenos prazeres: o cheiro do papel, a olhada acidental na capa do livro (que traz a lembrança de uma passagem interessante da leitura); são experiências significativas: as margens rabiscadas, as marcações desordenadas, às vezes escandalosas, feitas com o prazer de escrever à mão uma boa ideia que surge; são as histórias comoventes: achados como cartas e dedicatórias, perdidas entre as páginas no livro que fora de outro leitor (sobre isso, há uma linda matéria no “O Globo”)

Ultimamente, percebemos uma tendência de lançamento de lindas edições impressas, algo que era mais raro no mercado editorial brasileiro. Isso demonstra que o apego ao livro como objeto tradicional não é apenas meu, há um público amplo para o produto:

  • edições diferentes para uma mesma obra;
  • a história do livro, da arte (de tudo), primorosamente ilustrada;
  • diário publicados em fac-símele (tão fidedignos ao original que nos envergonham pelo sentimento de invasão da privacidade de alguém que muito admiramos);
  • livros que são uma obra de arte por si só.

Apaixonados por livros entenderão.

Viva o e-reader e viva o livro impresso também. Independentemente de seu hábito, acho que temos apenas um inimigo em comum: a taxação do livro.

#Defendaolivro

Matérias relacionadas:

NOS EUA, LIVRARIAS SE VESTEM PARA A GUERRA CONTRA A AMAZON. PublishNews, [s. l.], 16 out. 2020. Disponível em: https://www.publishnews.com.br/materias/2020/10/16/nos-eua-livrarias-se-vestem-para-a-guerra-contra-a-amazon. Acesso em: 25 mar. 2021.TRÉZ, JoãoGabriel.

Pequenas e médias editoras debatem panorama editorial após proposta da Amazon. O Povo Mais, [s. l.], 23 mar. 2021. Disponível em: https://mais.opovo.com.br/jornal/vidaearte/2021/03/23/pequenas-e-medias-editoras-debatem-panorama-editorial-apos-proposta-da-amazon.html. Acesso em: 25 mar. 2021.

10 comentários

  1. Amei o texto…escrito na 1º pessoa que traz uma aproximação com o leitor. Acho que devaneios têm “um quê” de poesia.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Pandemina e ainda sem devaneios, ficaria mais difícil! Obrigada por tua visita Mar!

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  3. Hahaha adorei a história de Antônia, deu vontade de começar a dar nomes para todos os objetos, carência da pandemia será?

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  4. Não Bi, foi só pela associação com outra resistência… Ainda não cheguei no ponto de personificar objeto 😉

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