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Filha perdida por Elena Ferrante

Lista “Mulheres, literatura e libertação”

13 – A filha perdida por Elena Ferrante

Hoje, 9 de maio, faz 23 anos que perdi meu pai. Em 1998, 9 de maio caiu no sábado que antecedeu o dia das mães. Os nascimentos e as mortes, sejam eles reais ou figurados, são marcos de aprendizagem em nossas vidas. Falo na terceira pessoa porque acho que são eventos que marcam significativamente a todos, seja por sua grande felicidade ou aterradora tristeza. Acho.

Com a morte de meu pai me tornei uma pessoa melhor, mas talvez não suficientemente boa, um sentimento percebido com outras mortes figuradas.

Considerando tudo aquilo que popularmente costumamos dizer ser Freud capaz de explicar, há essa relação por vezes conturbada entre pais e filhos. Uma complexidade que unanimemente escapa às propagandas comerciais. Sendo domingo das mães, hoje, a lista recomenda “A filha perdida” de Elena Ferrante. Uma forma de contrabalançar qualquer idealização e qualquer estereótipo corriqueiramente aplicados a mães e filhos. Ferrante faz isso brilhantemente, considerando sua capacidade de produzir relatos profundos e honestos sobre a realidade. Uma realidade muito humana e, portanto, incongruente com tendências beatificadoras.

O dia das mães é uma data especial para as mulheres, há a máxima “toda mulher nasce para ser mãe”. Como mulher sem filhos, considero essa frase excelente no contexto teórico da origem das espécies de Charles Darwin. Para além desta perspectiva, a frase me parece insuficiente para explicar o tanto de coisas para as quais uma mulher pode nascer para ser, sendo algumas, inclusive, incompatíveis com a maternidade.

Às mães também cabe uma luta diária com estereótipos, uma tentativa de anulação frequente que tende a reduzir a identidade da mulher à maternidade.

A solução para tantos dilemas me parece a compreensão não idealizada de qualquer relação e uma boa dose de auto-conhecimento e auto-estima, ambos fundamentais também para sermos melhores filhas e mães. Abaixo, transcrevo um trecho de um diálogo de “A filha perdida”, que me parece sintetizar a complexidade da maternidade.

– Por que você deixou suas filhas?

– Eu as amava demais e achava que o amor por elas impedia que me tornasse eu mesma.

-Você não as viu nenhuma vez em três anos?

– E como se sentiu sem elas?

– Bem. Era como se todo o meu tivesse desmoronado, e os meus pedaços caíssem livremente por todos os lados com uma sensação de contentamento.

– Você não sentia tristeza?

– Não, eu estava ocupada demais com minha vida. Mas eu tinha um peso aqui, como se fosse uma dor no estômago. E me virava com o coração pulando todas as vezes que ouvia uma criança chamar a mãe.

– Então você estava mal, e não bem.

– Eu estava como alguém que conquista a própria existência e sente um monte de coisas ao mesmo tempo, entre elas uma ausência insuportável.

Ferrante, p.143-144

Referência

FERRANTE, Elena. A filha perdida. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016.

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