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Cartas a Nelson Algren por Simone de Beauvouir

Lista “Mulheres, literatura e libertação”

10 – Cartas a Nelson Algren por Simone de Beavouir

A estranha situação que se coloca é que muitas vezes há uma oposição entre a mulher livre e a mulher apaixonada, como se ambas não pudessem coexistir. Isso decorre da pressuposição de submissão das mulheres no amor, acho que, principalmente, nas relações heterossexuais.

A publicação de algumas das cartas de Simone nos auxiliam a compreender como era sua rotina e como eram suas relações mais próximas. No Brasil, temos a publicação da correspondência dela para Nelson Algren, um escritor americano que foi seu amante por muitos anos (BEAUVOIR, 2000). Neste livro, vemos que ela tinha uma rotina pesada de leituras e escrita, vemos sua personalidade apaixonada por seu trabalho e por seus amantes e o papel da boemia em sua vida. Os cafés, restaurantes e boates de Paris eram seu espaço de ativismo e de articulação política quase sempre acompanhada de Sartre.

Muito inspirada nestas cartas, Irene Frain escreveu uma biografia romanceada chamada “Beauvoir Apaixonada”. Sobre o livro, a revista “Isto É” publicou uma resenha intitulada “A Traição Consentida de Simone” (PINTO, 2013). O estranho título da resenha é acompanhado da seguinte descrição: “Biografia romanceada narra a paixão da filósofa Simone de Beauvoir por um escritor americano, sob total aprovação do marido, Jean-Paul Sartre. Ela queria apenas ser amada e submissa.” 

O primeiro parágrafo da resenha segue a mesma linha: “Uma mulher pedante, preocupada com esmaltes e batons, apavorada com o envelhecimento e ciumenta a ponto de não suportar a simples menção do nome da amante de seu marido – assim é pintada a musa do existencialismo (…). O retrato surpreende porque publicamente Simone sempre se mostrou uma feminista e escreveu uma das bíblias do feminismo, ‘O Segundo Sexo’.” (PINTO, 2013)

Como se não bastasse a existência dos(as) anti-feministas, há, entre os opressores, as feministas vigilantes do feminismo alheio, como demonstra essa pérola que acabo de citar. Faço menção a este triste episódio porque ele me parece representar um problema mais amplo relacionado com a existência de um ativismo discursivo feroz oriundo muito frequentemente de quem se demonstra incapaz de realizações efetivas. Quando a resenha descreve:  “O retrato surpreende porque publicamente Simone sempre se mostrou uma feminista”, vemos aí um problema muito sério. Simone não tinha apenas um discurso público feminista, ela desenvolveu um projeto e deixou uma vasta obra que contribuiu significativamente para o desenvolvimento do feminismo. Não existe interesse por esmaltes que anule seu valor como feminista.

Bom, sobre isso, a própria Simone de Beavouir já havia nos advertido:

 “O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos”

Simone de Beauvoir

Gosto muito destas correspondências. Abaixo, transcrevo um trecho da carta 33, uma das minhas preferidas:

“Essa é, na verdade, a principal razão por que não quero ficar em Chicago: a necessidade que sempre tive de trabalhar, de dar um sentido à minha vida através do trabalho. Você também sente essa necessidade e é por isso que nos entendemos tão bem. Você quer escrever livros e, ao escrevê-los, ajudar o mundo a ser um pouquinho menos feio. Para mim é a mesma coisa. Quero comunicar às pessoas a minha maneira de pensar, que acredito ser verdadeira. Eu poderia renunciar às viagens, a todas as distrações, poderia abandonar meus amigos e deixar as doçuras de Paris para ficar para sempre com você, mas não poderia viver unicamente de felicidade e de amor, não poderia renunciar a escrever e a trabalhar no único lugar do mundo onde meus livros e meu trabalho têm um sentido. E é ainda mais penoso porque, já lhe disse, nosso trabalho aqui não é promissor, enquanto o amor e a felicidade são realidades palpáveis. No entanto, é preciso fazer alguma coisa contra as mentiras do comunismo e do anticomunismo, contra a falta de liberdade que castiga a França. Aqueles que se importam com a situação precisam fazer algo.”

(BEAUVOIR, 2000, p. 61)

Também disponível em BeD outro texto mais longo sobre Simone de Beavouir. Este trecho curtinho foi feito para caber no curto espaço do Insta para a Conexão Rendeiras

Referências

BEAUVOIR, Simone. Cartas a Nelson Algren: um amor transatlântico: 1947-1964. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000. 

PINTO, Aina. A traição consentida de Simone. Isto É Independente, São Paulo, 2013. Disponível em: https://istoe.com.br/292175_A+TRAICAO+CONSENTIDA+DE+SIMONE/. Acesso em: 3 fev. 2020.

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