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A infraestrutura e a cultura de e-books em bibliotecas universitárias: pressões de uma pandemia

#Repost do texto escrito e publicado originalmente para FALA FEBAB pela CBBU!

A transição do impresso para o digital nas bibliotecas requer mudanças em aspectos que podem ser considerados como sendo de infraestrutura e de cultura de informação. Partindo destas categorias, o presente texto discute o desenvolvimento de coleções de e-books para dar suporte ao Ensino Remoto Emergencial (ERE), que foi, certamente, um dos principais desafios enfrentados pelas bibliotecas universitárias no período da Pandemia por COVID-19.

Para buscar soluções para os e-books, considera-se importante pensar como foi enfrentado o desafio da virtualização das coleções de periódicos, que, há 20 anos, contou com a criação de duas importantes infraestruturas de informação: o Portal CAPES e o SciELO. Naquela época, a interrupção abrupta do envio dos fascículos impressos às bibliotecas revolucionou os hábitos de pesquisa por artigos até dos pesquisadores mais resistentes à tecnologia. Não havia saída, os periódicos impressos correntes não chegavam mais às bibliotecas: era adaptar-se ao acesso às coleções amplamente disponibilizadas no Portal CAPES e SciELO ou desatualizar-se.

No caso dos livros, observa-se uma transição mais lenta. Isso ocorreu por vários motivos, sendo, talvez, o primeiro deles, de natureza cultural. Adaptar-se à tela de um computador para ler um texto de 15 páginas corresponde a um esforço muito menor do que o exigido para a leitura de 500 páginas. Assim, considera-se plausível que um leitor prefira ir até uma biblioteca para retirar um livro impresso por empréstimo do que ler por horas a fio na frente do computador. O dilema de leitura entre duas escolhas inconvenientes ocorre porque:

  1. muitos usuários (seja por falta de recursos, seja por desconhecimento) ainda não descobriram que tablets, mas, mais especificamente, e-readers (kindle, kobo, etc.) permitem um conforto de leitura muito superior ao computador e, para alguns, inclusive, superior ao livro impresso;
  2. muitas empresas contratadas pelas bibliotecas para fornecer o acesso institucional às coleções de e-books limitam a leitura do texto em plataformas com DRM (Digital Rights Management). Plataformas com DRM são utilizadas para dificultar a distribuição indevida dos livros e preservar os direitos autorais. Contudo, frequentemente, elas impõem um controle tão severo, que limitam a leitura até mesmo para quem pagou para ler o livro. Acesso apenas on-line, plataformas que não se ajustam aos dispositivos móveis, limitação excessiva de usuários simultâneos, são exemplos de dificuldades que se impõe aos leitores de e-books de coleções de bibliotecas.

Assomando-se a esses aspectos identificados aqui como culturais relativos aos hábitos de leitura, há ainda um outro elemento determinante, que consiste na precariedade da infraestrutura de coleções de e-books na imensa maioria das bibliotecas universitárias. SciELO e Portal CAPES possuem uma coleção muito menos exaustiva de e-books do que de periódicos. Sem contar com uma infraestrutura nacional, as coleções hoje disponibilizadas nas bibliotecas resultam de iniciativas individuais das instituições, que, tradicionalmente, são muito díspares em termos dos orçamentos que dispõem e da priorização de investimentos em bibliotecas. No Brasil (assim como no exterior), são as universidades mais desenvolvidas em pesquisa que costumam priorizar o investimento em bibliotecas.

Contudo, mesmo nas instituições com melhor infraestrutura, a contratação de e-books enfrenta desafios especiais para além da conhecida diminuição dos orçamentos do Ministério da Educação como um todo em anos recentes. Entre eles, destaca-se algumas limitações verificadas nos modelos de negócio para compra/assinatura de e-books em português, principal demanda do ERE, como segue:

  1. indisponibilidade eletrônica dos livros para acesso institucional;
  2. modalidade de contratação nem sempre adequada para o conteúdo das publicações: assinaturas de acesso imediato à última edição são ideais para e-books sobre assuntos que obsolescem muito rapidamente; compras perpétuas são ideais para e-books que raramente ganham novas edições com alterações significativas de conteúdo. Contudo, nem sempre o modelo disponível é adequado ao conteúdo; 
  3. falta de flexibilidade no modelo de seleção de títulos, havendo frequentemente apenas uma opção: aquisição de pacotes (valor investido alto com preço mais acessível por título, mas nem sempre compatível com o recurso disponível) ou unicamente aquisição título a título com preço unitário frequentemente muito alto.

Além disso, há de se destacar que o investimento em e-books requer não apenas a contratação de coleções, mas também um desenvolvimento dos serviços da Biblioteca, que precisará investir em: sistemas de descoberta ou outras alternativas que viabilizem uma busca integrada de informações sobre todas coleções; e, capacitações e atendimentos aos usuários para promover o conhecimento sobre as coleções de e-books e as variadas formas de acesso disponibilizadas pelos diferentes fornecedores.

A chegada da Pandemia, que assolou sob tantas formas o mundo e, talvez, sobremaneira a população brasileira, fez emergir a consciência sobre a fragilidade da infraestrutura nacional para acesso aos E-books, sobre as limitações severas dos modelos de negócio praticados no Brasil e sobre a urgência no desenvolvimento dos serviços das bibliotecas para fomentar novos hábitos leituras em plataformas tão distintas. 

A verdade é que esta é uma boa época para bibliotecários que gostam de ser desafiados. Nossa luta, neste momento, deve se centrar em investimentos nacionais em e-books, na adaptação dos modelos de negócio com responsabilidade social e nas redes de colaboração entre as bibliotecas para qualificação de seus serviços a suas comunidades. 

Espera-se que o mercado brasileiro de e-books perceba que, assim como aconteceu com a indústria do cinema e da música, o lucro deve vir do acesso em alta escala e não no alto preço título a título. Esses dois setores mostram que a popularização dos bens culturais pode sim ser um bom negócio.

O Brasil é um país carente de educação e de boas bibliotecas. Elitizar o acesso aos e-books traz consequências sociais danosas ao país e um efeito colateral danoso também para o mercado: sem acesso legal aos e-books, a pirataria floresce. Sabe-se que alterações de mercado não são simples, mas acredita-se que a colaboração entre os agentes de diferentes setores seja capaz de transformar a infraestrutura e a cultura de acesso aos e-books como instrumentos de transformação social, educacional e científica no Brasil.

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