Devaneios Literatura Promoção da leitura

Cem anos de solidão, três noites sem dormir (ou O livro certo na hora certa)

Todos sabemos os benefícios da leitura sob infinitos aspectos. Contudo, nem todo mundo gosta de ler. Eu tive um ambiente muito favorável para me tornar leitora:

– minha mãe lia para mim todas as noites desde muito pequena;

– Vanessa, minha querida amiga de infância, amava como eu a pesquisa escolar e a literatura. Eu sempre tinha uma companhia divertida (e um tanto obsessiva) para buscar o livro que tinha o melhor trecho sobre o assunto que estávamos estudando. Sempre trabalhávamos com diferentes livros didáticos e todo trabalho escolar encarávamos juntas como um desafio criativo (mesmo que por vezes desastroso);

– Nara, minha professora de português e literatura do segundo grau foi outra figura super importante. Ela não nos deixava sair de férias sem uma enorme lista dos livros que trabalharíamos no ano letivo seguinte. Conheci o Centro de Porto Alegre sozinha porque percorria todos os sebos no verão em busca do exemplar mais barato e bonito das dezenas de obras da lista. Ela me ensinou a aprender a história, a cultura e as relações sociais pela literatura. Suportei até os autores românticos brasileiros porque via para além das descrições que, apesar de enfadonhas, representavam vividamente uma tendência de idealização de relacionamentos (com afetos e com a pátria) tão típica do Século XIX.

Além do estímulo, acho que o hábito de leitura também acaba por se constituir como uma parte importante do nosso cotidiano pelo auto-conhecimento sobre nossos gostos e humores: existem livros que provavelmente nunca vamos gostar e aqueles que num certo momento não nos capta, mas que também não nos afasta por completo. Ele acaba ficando em nossa cabeça e pouco tempo (ou muitos anos depois) o retomamos, passando a gostar da leitura.

Vejo muitas pessoas dizerem ter dificuldade de engatar em Cem anos de Solidão. Ele foi meu primeiro livro de García Marquez. Aos 19 anos, numas férias de faculdade/trabalho, retirei por empréstimo, muito despretensiosamente, o exemplar da Biblioteca do Colégio São Pedro onde trabalhava. Abri o livro pensando em ler um pouco, mas não consegui parar de lê-lo. Li todo o livro em 3 dias numa espécie de possessão. Dormi pouco e fiquei grata por estar de férias. Pensei: os leitores devem ter uma espécie de anjo da guarda que administra seu calendário de leitura.

Tentei ler Machado de Assis no colégio, mas não deu liga. Aos 30 e poucos anos, li Dom Casmurro sem conseguir largá-lo. Fiquei feliz por não ter insistido em uma leitura sem prazer na adolescência. Ler com prazer Dom Casmurro foi uma das melhores experiências de leitura da minha vida. Memórias Póstumas de Brás Cubas tentei engrenar várias vezes sem sucesso. Ele está guardado para outro momento.

Quando estava fazendo mestrado, li “O Pêndulo de Foucault” de Umberto Eco. Insisti porque ele havia sido super recomendado por uma querida amiga, que eu considerava ter um gosto muito afinado com o meu. Alguns anos antes, eu já havia sido abdusida pelo “O Nome da Rosa”, tentei “O Pêndulo”. Lia e não gostava, seguia lendo e não gostava. Toda noite, lia meia página. Não conseguia ler mais do que isso. Levei três anos para fazer o mestrado (a Capes de então não era a Capes de hoje), quase no fim da dissertação, terminei de ler o “bendito” livro. Não li mais nada no meio. Fiquei três anos em um único livro. Meu único alento foi internalizar a máxima que sigo religiosamente: as leituras de lazer devem ser interrompidas se não estão dando prazer naquele momento. Interrompidas, momentânea ou definitivamente, não interessa, eu não leio mais sem prazer.

Hoje, sempre que estou em um projeto complicado, leio um romance viciante e fácil de ler (obviamente, muito bem escrito, odeio textos mais ou menos). Se a cabeça já está sobrecarregada, que um romance leve a dessobrecarregue.

Há também momentos que não consigo ler. Geralmente, nesta fase, escrevo.Um texto sem valor algum, mas libertador. Um instrumento de auto-conhecimento e auto-ajuda adquiridos em terapia cognitiva. São fases que odeio, me sinto muito mal quando não consigo ler. Mas aprendi a ter paciência, sei que a fase irá passar.

Às vezes, vejo nas redes sociais as pessoas fazendo listas dos romances mais importantes de suas vidas. Fico impressionada, em sua grande maioria, são listas constituídas apenas de grandes clássicos. Gosto de clássicos quando estou com aquele espírito livre e evoluído (geralmente de férias) capaz de apreciar a arte em todo o seu esplendor. Contudo, longe de me encontrar tão frequentemente neste estado de graça, muitos outros livros não clássicos foram marcantes e salvadores para mim por diversão, conhecimento e, frequentemente, tábua de salvação (para esse últimos veja a categoria #LeiaMulheres neste blog).

A dupla capacidade da literatura de ser recurso para entender o mundo e para fugir do mundo é encantadora. Eu sempre reverencio o Anjo Protetor dos Leitores quando ele coloca em meu caminho o livro certo para o humor do momento. Se Deus é brasileiro, eu não sei (hoje desconfio que não), mas, jogo e não perco, esse anjo tem uma vocação bibliotecária.

Salve a Leitura!

E não esqueça: #Defendaolivro contra a taxação.

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