Devaneios

Sociedade de esquina

Recentemente li o apêndice metodológico do clássico estudo de caso realizado por William Foote White, entre 1936 e 1940, intiluado “Sociedade de esquina”. Infelizmente, ainda não tive tempo de ler a obra por inteiro, mas o apêndice é simplesmente maravilhoso. Um dos aspectos tratados pelo autor que achei particularmente interessante é o relacionamento do pesquisador com a comunidade quando a coleta de dados é realizada com a técnica de observação participante. Tentarei aqui, presuçosamente, resumir algumas questões levantadas por White sobre este tema:

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As pessoas pesquisadas manifestam interesse pelas atividades do pesquisador, querem saber se seu comportamento será estudado ou julgado. O pesquisador deve tentar demonstrar a sinceridade de seu interesse e o empenho na busca para realização do melhor. As explicações devem ser compatíveis com o nível de compreensão e interesse demonstrado pelos pesquisados, sendo suficientemente satisfatórias para estimular a colaboração.

Todavia, especificamente as informações fornecidas às pessoas-chave da comunidade são determinantes para o entendimento e apoio geral. As bases nas quais o relacionamento com o(s) informante(s) se estabelece é fundamental para o desenrolar dos procedimentos de coleta de dados. Um informante adequadamente instruído sobre as necessidades do estudo é capaz de dar contribuições qualificadas e indicar os meios pelos quais informações importantes podem ser obtidas.

Um cuidado adicional deve ser dado ao respeito às convenções sociais que regem uma comunidade. O pesquisador precisa se adaptar aos costumes locais sob pena de chamar ainda mais atenção para si do que o desejável ou de sofrer algum tipo de rejeição. Entretanto, as pessoas estudadas também compreendem que o pesquisador não é exatamente igual a elas e, muitas vezes, a própria diferença desperta o interesse dos pesquisados pelo estudo. Assim, a aculturação total não necessariamente é um requisito a ser perseguido.

A insegurança do pesquisador quanto à sua aceitação no campo e a necessidade de concentração permanente nos períodos de observação e entrevista são a principal fonte de desgaste na fase de coleta de dados. Whyte relata que somente sentiu que havia encontrado seu lugar na comunidade quando passou a ser cumprimentado de forma natural e amigável.

Sobre a proficiência do pesquisador nas técnicas de coleta de dados, Whyte enfatiza a habilidade de observar as pessoas em ação e escrever um relatório detalhado sobre os comportamentos concretos, isento de julgamentos morais.

Por seu turno, quando conduz as entrevistas, o pesquisador não pode incorrer em discussões com os entrevistados ou insinuar oposição aos comportamentos manifestos. Ao contrário, a postura que indica uma aceitação interessada constitui uma prática esperada.

Além do momento de perguntar, o pesquisador deve saber identificar a hora de calar. Uma questão colocada em um instante inoportuno pode colocar a perder todo o conjunto de contribuições que um entrevistado poderia fornecer. Quando a coleta de dados é feita com entrevistas associadas à observação, por exemplo, há ainda a possibilidade de que as respostas surjam naturalmente das atividades cotidianas, dispensando a manifestação explícita da questão.
No que tange à observação, o pesquisador deve ser particularmente cuidadoso nos seus modos de interação com o grupo, buscando uma interação que não influencie o comportamento da comunidade.

A permanência prolongada no campo possibilita o acompanhamento das mudanças que corriqueiramente incidem sobre os fenômenos sociais. Contudo, se no princípio o pesquisador enfrenta dificuldade para se tornar um observador participante, ao final do processo ele pode se tornar um participante não observador.
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Referência:

WHYTE, William Foote. Sobre a evolução de Sociedade de Esquina. In: ______. Sociedade de esquina : a estrutura social de uma área urbana pobre e degradada. Rio de Janeiro: Zahar, 2005. p. 283-263.
[Indicação da Profa. Cinara Rosenfield na disciplina “Metodologia da pesquisa II” do PPG em Sociologia da UFRGS

Sugestão:

Leiam o apêndice, o texto é ótimo e o relato precioso para quem precisa realizar qualquer tipo de pesquisa!

2 comentários

  1. Ao se tornar um participante e não mais simplesmente um observador o pesquisador avança para uma perspectiva etnográfica, que implicará no desenvolvimento de uma série de mecanismos de controle para que não se perca o foco da abordagem investigativa. Seria isso?Cleon

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  2. É, acho que é exatamente isso! O livro do Whyte é maravilhoso por sua capacidade de se colocar como um investigador que, antes de tudo, é uma pessoa. Não é uma receita de bolo de como fazer \”tudo certo\” em uma pesquisa. É um relato realista de um cientista, que realizou uma pesquisa magnífica e que, para isso, não precisou negar sua subjetividade e suas dificuldades! Acho o texto imperdível!!!!

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