Política

O posto de saúde, a escola, a parada de ônibus

(Textão mesmo)

Uma reflexão sobre as derrotas de 2020 num texto longo, às vezes repetitivo, mas que reflete minha necessidade de desabafo. Local de fala: Porto Alegre, RS-Brasil

(Serviços públicos de qualidade: um exemplo)

Nos Governos Lula e Dilma vivemos um período de investimento no serviço público, nas políticas específicas de erradicação da fome e nas políticas gerais de aumento da renda e de qualidade de vida dos trabalhadores. No meu espaço de atuação como servidora pública, na Universidade, ganhamos uma nova Carreira, que valorizou nossa titulação (uma forma indireta de induzir à qualificação dos serviços) e introduziu a avaliação de desempenho para progressão (uma forma direta de qualificação): avançamos na carreira quando atingimos metas definidas num processo de Gestão modernizado que precisa, com a fiscalização do Tribunal de Contas da União (TCU), ter um desempenho eficaz de acordo com critérios exigentes de Governança. Trabalho em uma universidade que é a melhor federal em oito anos num ranking em que as universidades privadas apresentam um desempenho pífio, mesmo cobrando suas altas mensalidades e recebendo também recursos públicos.

Quando analisamos a precarização do ensino público fundamental e médio no Brasil, vemos uma precarização da educação como um todo. As escolas particulares se tornaram as melhores, mas oferecendo uma formação de qualidade muito inferior daquela antes feita nas melhores escolas públicas.Por que escrevo isso?

(Muitos países de grandes economias capitalistas…)

Porque temos muitos países de grandes economias capitalistas que mantém os serviços básicos sob sua responsabilidade para garantir qualidade de vida à sua população. Além disso, nestes países, há também uma rigorosa política de fiscalização do setor privado . Nestes países, o mundo é perfeito? Não! Mas as imperfeições são investigadas e punidas. Numa Pandemia, você gostaria de estar vivendo num país sem Sistema Público de Saúde?

(2020: a vitória do Centro-Direita)

Neste contexto e considerando uma vitória acachapante dos Partidos de Centro-Direita (assim chamados porque tradicionalmente assumem o Estado para delegar as funções públicas ao setor privado), pergunto: onde estão errando os partidos que buscam desenvolver políticas para aqueles cidadãos que dependem MUITO do Estado para ter uma vida digna? Se este é o maior segmento da população, por que seus votos não são direcionados para os partidos que efetivamente satisfarão suas necessidades?

(A culpa é do povo?)

Muitos dizem: a população não sabe votar! Mas, a culpa é da população?Eu acho que não! É óbvio que a população não sabe, por isso precisamos tanto de educação pública, por isso precisamos tanto do trabalho dos comitês de base (estes feitos, neste exato momento, por igrejas evangélicas).

(O aprendizado da cidadania)

Cidadania se aprende, não é natural para muitos: é complexa a compreensão dos agentes que para o bem ou para o mal afetam cada pequena parte de nosso cotidiano. Muitos dizem, eu não gosto de política. Na verdade, não adianta não gostar, tudo é político!

Minha eterna inconformidade com a comunicação dos partidos de esquerda é a dedicação integral às denúncias das injustiças do opressor. O problema é que o opressor, mesmo onipresente, é ao mesmo tempo abstrato, requer uma compreensão de sistema social que por muitos não foi aprendida. A comunicação não é didática e, em assim sendo, não leva a votos. Os oprimidos continuam a votar em seus opressores!

(Mulheres na política)

Sobre a não eleição de mulheres: eleições majoritárias não dependem de segmentos, mas da maioria da população. Acho que houve um exagero no discurso de gênero, isso é irrelevante para muitos, mas acho que excludente para alguns (talvez para a maioria).

Yeda e Dilma se elegeram sem enfatizar o gênero. Mulheres são oprimidas? São! São mais vulneráveis aos discursos sexistas e de ódio? Sim! Contudo, quando eleitas, as mulheres serão prefeitas, governadoras, senadoras, presidentas de todos, não serão vereadoras e deputadas com ênfase na atuação de um segmento. Novamente, problema na comunicação.

(O posto, o ônibus, a escola)

A população que depende de serviços públicos vive os problemas cotidianos da cidade: a espera no posto de saúde, a consulta com o especialista que nunca é marcada, o ônibus que não chega, a falta de professor na sala de aula, a escola próxima que fechou… O político precisa mostrar que conhece em detalhe o problema e como ele vai solucioná-lo. A causa do problema é uma só: as elites governam para as elites. Sim, sabemos, mas isso é abstrato. Acho que temos que aplicar mais Paulo Freire, quem sabe nosso problema não é falar da Uva no meio do sertão do nordeste?

(2018 versus 2020)

Duas razões de esperança:

– 2020 foi melhor do que 2018, a vitória da direita saiu de sua parte extrema e retornou para seu Centro.

– diferentes siglas de esquerda começaram a conversar, trabalhar juntas, começaram, talvez, a se tornarem mais pragmáticas.

(Utopias e distopias)

Amaria viver num mundo de utopias. Continuo achando que elas devem povoar nossos sonhos e esperanças, serem a filosofia que norteia nossas ações. Contudo, a realidade é concreta, negá-la nos fez viver um pesadelo, uma crônica literalmente distópica. Estaríamos precisando de discursos mais concretos?

(O combate ao discurso de ódio: o posto, o ônibus, a escola)

Nossa sociedade é estruturalmente machista, racista e homofóbica? É, mas apenas deixará de ser no nível estrutural quando os serviços públicos forem capazes de garantir cidadania a todos os cidadãos, mas isso será uma consequência. Os discursos precisam representar os meios, as políticas que dão o atendimento de saúde rápido no posto, possibilitam o tratamento das doenças de diferentes especialidades médicas, possibilitam o acesso a diferentes e distantes localidades com ônibus presentes regularmente nas paradas, promovem a aprendizagem significativa dos alunos mediada por professores presentes na sala de aula de escolas próximas dos alunos, inclusive nas zonas mais periféricas… O discurso precisa refletir aquilo que alguns governos de esquerda já entregaram às populações, o problema é que os processos de transformação social são muito lentos. Essa transformação se inicia por uma gestão pública que ofereça serviços públicos eficientes como iniciei no início deste longo texto de desabafo!

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