Literatura Métodos de pesquisa

Felicidade

Quando estamos fazendo uma pesquisa as questões metodológicas tornam-se uma obsessão até mesmo em nossas leituras cotidianas. Eu, pelo menos, ando assim (há muitos anos). Até para ler um romance tenho um lápis na mão.
Neste meu espaço de leituras para o lazer estive lendo um livro, maravilhoso, do Eduardo Giannetti*, chamado Felicidade. Numa das partes do seu ensaio filosófico, Giannetti trata de dois aspectos importantes relativos ao método científico: a confiabilidade das respostas dos pesquisados e as restrições das possibilidades de medida em pesquisas sociais.
Falando especificamente de questionários e enquetes de opinião, o autor revela, pelo debate de seus quatro personagens, a polêmica inerente ao uso deste tipo de instrumento de pesquisa (p. 70-73). Melo, um dos protagonistas do ensaio, adverte: “Pergunte-se a si próprio se você é feliz, e você deixa de sê-lo. Ou como diria o nosso Fernando Pessoa, ‘por que é que, para ser feliz, é preciso não sabê-lo?’ “. Mais adiante Melo ainda complementa: “Mas você não acha que o simples fato de se perguntar a alguém se está feliz ou satisfeito com sua vida já não acaba alterando e interferindo na resposta?”
Otto, o outro interlocutor do debate inventado por Giannetti, pondera: “As respostas são confiáveis? O que as pessoas dizem sobre o que sentem acerca de suas vidas corresponde a um fenômeno real, a alguma coisa sobre a qual podemos fazer inferências válidas sobre o mundo? Com toda a franqueza, não sei. E também ficaria muito desconfiado se alguém alegasse saber. O problema maoir, creio, não é uma improvável falta de sinceridade nas respostas. Não há razões para mentir em pesquisas de opinião nas quais não se identifica pelo nome o entrevistado. As reais dificuldades são de ordem cognitiva e de comunicação. (…) Há um trabalho magnífico** que demonstra como até mesmo a sequência específica das perguntas feitas num questionário pode alterar o teor das respostas.(…) A questão da confiabilidade, concordo, é um vespeiro. Mas nem tudo está perdido. Parte dos problemas a lei dos grande números resolve. (…) O mais importante, entretando, é que as evidências de bem-estar subjetivo baseada em respostas individuais sobreviveram a numerosos testes de validação. As pessoas que se declaram “muito felizes” nas pesquisas possuem atributos observáveis que podem ser tomados como indicativos de felicidade: elas tendem a ser classificadas como felizes por seus parentes e amigos; sorriem com maior frequência; têm maior propensão a renovar contatos sociais com amigos; faltam menos ao trabalho; apresentam menor incidência de sintomas físicos associados a estresse e têm menor probabilidade de morte prematura ou de cometer suicídio. Tudo isso está longe de ser uma prova conclusiva de que as respostas obtidas refletem o verdadeiro grau de felicidade das pessoas, mas creio que é uma boa primeira aproximação da questão. O fato de a felicidade ser uma experiência subjetiva não significa que nós não devamos buscar a máxima objetividade possível na tentativa de compreendê-la.”
Alex rebate: “Mas você há de convir que, por mais que se avance no caminho da objetividade, exitem obstáculos intrasponíveis no percurso… Até onde se pode chegar por essa via?”
O debate, aqui reproduzido apenas em alguns trechos, não chega a qualquer conclusão, como era de se esperar. Mas achei interessante destacá-lo, constitui nosso eterno dilema, a confiabilidade de uma pesquisa é ameaçada quando o método é irremediavelmente impregnado pela subjetividade do pesquisador e do pesquisado?
Quando eu encontrar a minha-subjetiva-resposta, prometo contar!

Referência:

* Giannetti, Eduardo. Felicidade : diálogos sobre o bem-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

** Schwarz, N.; Strack, F. Reports of subjective well-being: judgmental processes and their methodological implications. In: Kahneman, D. et al. (Ed.). Well-being. Nova York, 1999

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: