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Fim de um ciclo de gestão

Mensagem enviada ao Sistema de Bibliotecas da UFRGS em 06/12/2024

Caríssimas(os) colegas,

Aproveito a oportunidade da nossa confraternização para comunicar meu até breve, considerando meu afastamento temporário da função de bibliotecária do Sistema de Bibliotecas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (SBUFRGS) para exercer a função de Diretora da Editora da Universidade. Mas mais que o “até breve”, quero agradecer a confiança a mim depositada para coordenar tecnicamente a Biblioteca Central nos últimos 8 anos.

Quando assumi a Direção da BC, tínhamos um desafio imenso de incorporar aos departamentos as funções da Gerência do Sistema de Automação de Bibibliotecas (SABi). Além dele, tínhamos também o desafio dos serviços: avançar no desenvolvimento de ações educativas e culturais para a formação de competências informacionais e promoção da leitura.

Com a criação do Super 8 pelas equipes do SBUFRGS, avançamos muito neste sentido. Mesmo com a virtualização dos acervos, revertemos o quadro de ameaça à importância atribuída  às bibliotecas pela ocupação qualificada de salas de aula, laboratórios, auditórios e ambientes virtuais por bibliotecários que desenvolveram conteúdos e práticas de forma radicalmente colaborativa. Colaboração que alimentou a coragem dos profissionais que avançaram do discurso para uma ação verdadeiramente inovadora, contrapondo a enumeração de problemas com soluções de alto impacto social.

Vivemos um sucateamento das estruturas de bibliotecas em escolas, municípios e bairros, não por sua queda de importância nos sistemas educacionais e culturais, mas por um equívoco de política pública. Ainda mantemos um sistema de bibliotecas forte, somos herdeiros do legado das gerações de bibliotecários que nos antecederam e foram pioneiros em produtos e serviços de biblioteca em seu tempo. Nos últimos oito anos nos coube o desenvolvimento do SBUFRGS em múltiplos e amplos sentidos*, tendo uma forte base de sustentação e uma tradição a honrar.

Este último ciclo de gestão das bibliotecas da UFRGS agrega condições desafiadoras: restrição orçamentária severa, pandemia, ruptura da Administração Central com o Conselho Universitário, alterações drásticas de política de gestão de expedientes (flexibilização versus teletrabalho) e enchentes. Dificuldades que muitas vezes acirraram ânimos, promoveram conflitos, que sempre devem ser superados, mas nem sempre o são. 

A Pandemia por COVID-19 foi, sem dúvida, um marco para a compreensão e a revisão estratégica da gestão dos serviços bibliotecários. Algo que temos defendido como sendo um processo de reinvenção das bibliotecas

Os muitos séculos que marcaram a Era Impressa centraram o poder das bibliotecas em suas coleções ou nos serviços de compartilhamento de coleções que se estabeleciam entre diferentes bibliotecas. Apenas nas últimas décadas, os avanços tecnológicos têm imposto, dia a dia, circunstâncias que têm acelerado o ritmo das mudanças em tal nível que é possível conceber uma biblioteca com intensa atuação junto à sua comunidade sem, necessariamente, formar qualquer coleção, usando apenas repositórios de acesso aberto, por exemplo. 

Com as medidas de isolamento social empreendidas na Pandemia por COVID-19, as instituições que investiram em suas bibliotecas para sua modernização tecnológica enfrentaram o fechamento de suas portas com muitos recursos disponíveis para seguirem sua prestação de serviços ao longo dos dois anos de realização do Ensino Remoto de Emergência (ERE). Esse foi exatamente o caso das bibliotecas da UFRGS: sem acesso a suas coleções impressas, o pleno acesso às publicações para o suporte às atividades acadêmicas foi possível tendo em vista consideráveis investimentos realizados pioneiramente em livros eletrônicos, no repositório institucional LUME e no sistema de busca integrada Sabi+ como aliados importantes para incrementar a infraestrutura nacional do Portal CAPES.

Além dos desafios,  das incertezas e do luto devastador pelas mortes por COVID-19, o período da Pandemia possibilitou um ganho de consciência sobre a missão reinventada das bibliotecas. Uma missão que foi ganhando expressão nas políticas e procedimentos desenvolvidos colaborativamente pelas equipes no período da Pandemia.

A promoção do acesso às coleções eletrônicas e de capacitações de pesquisa e uso de informações científicas têm seu impacto verificável nos hábitos de leitura da comunidade acadêmica quando observa-se as estatísticas de acesso à “Minha Biblioteca” e de circulação de coleções. O uso das coleções eletrônicas se manteve em patamar alto mesmo depois da reabertura das bibliotecas e a circulação de material impresso diminuiu significativamente em relação aos padrões de uso anteriores à Pandemia.

Esses novos hábitos de leitura de livros eletrônicos possibilitados pela existência de uma infraestrutura de informação foram promovidos por serviços das bibliotecas, que visam estimular uma cultura de informação por intermédio da produção de materiais para sites e redes sociais, bem como capacitações constantes oferecidas no projeto de extensão Super 8.

Os desafios de reinvenção das bibliotecas da UFRGS vivenciados na Pandemia por COVID-19 coincidem com um importante marco da história do Sistema de Bibliotecas da UFRGS. Em 13 de dezembro de 2021, a Biblioteca Central da UFRGS completou 50 anos de intensa atuação. Instaurou-se um ciclo comemorativo chamado de “A Biblioteca Cinquentenária”, desenvolvendo-se uma série de ações para a preservação da memória da BC e para a atualização regimental. Para tal foram criadas duas comissões especiais com a atribuição de coordenar estas atividades.

Logotipo e cerimônia comemorativos, cards para redes sociais, entrevistas, pesquisa documental e exposições foram realizadas neste período para conhecer, registrar e disseminar a história da gestão da Biblioteca Central e de seu principal acervo, a Coleção Eichenberg. “Uma biblioteca curiosamente central” foi o primeiro resultado apresentado em texto para a publicação, constituindo uma parte da série de ações que visam o resgate de nossa história. Em cinco décadas, a Biblioteca Central se desenvolveu de forma inovadora pelo enfrentamento dos desafios de seu tempo. O seu Regimento agora declara que sua atuação é pautada em:  

  1. responsabilidade social na gestão, promovendo a cultura de inovação para valorizar o papel da biblioteca na Era Digital;
  2. igualdade no acesso à informação e promoção da cultura de publicação em acesso aberto;
  3. equidade no acesso à informação e aos serviços das bibliotecas;
  4. confiabilidade pela seleção de coleções de conteúdo relevante e qualificado;
  5. transparência no compartilhamento de dados sobre desempenho, políticas e procedimentos;
  6. eficiência pela otimização da gestão dos recursos, do aperfeiçoamento dos processos contínuos de trabalho e da qualificação dos produtos e serviços para comunidade;
  7. interoperabilidade pela adoção de padrões e tecnologias que permitam compartilhamento e troca de informações.

Com estes e outros desafios pela frente, Dirce Santin, nossa Diretora da Biblioteca Central, tem um histórico profissional brilhante e uma capacidade ímpar para que nosso Sistema de Bibliotecas seja potente para sua comunidade e para além dela.

Nos vemos hoje, ficarei um pouquinho na confraternização por compromisso assumido anteriormente. Aos que conseguir abraçar, deixarei pessoalmente o meu agradecimento pelo lindo trabalho desenvolvido conjuntamente.

Um grande abraço,

Letícia Strehl

Diretora da Biblioteca Central (nov. 2016-nov. 2024)

*a) estabelecimento de rotinas rigorosas de atualização e revisão da documentação; b) modernização da plataforma de documentação e atendimento do SBUFRGS; c) qualificação das políticas de registro e armazenamento da produção intelectual; d) contribuição com a política editorial e os procedimentos de atribuição de DOI das publicações do Portal de Periódicos da UFRGS; e) participação na elaboração do Guia de Integridade em Pesquisa da UFRGS; f) aperfeiçoamento e ampliação das políticas e procedimentos de baixas de livros; g)  assessoria à Administração Central na avaliação da produção científica da UFRGS com métodos cientométricos; h) ampliação das políticas e procedimentos de identificação da bibliografia de graduação no SABi; i) estudos das plataformas de serviços de bibliotecas através de debate com especialistas nacionais e estudo em grupos institucionais com planos de migração não implementados por incompatibilidade entre recursos orçamentários e desenvolvimento técnico das soluções acessíveis; j) conclusão e regularização da situação patrimonial de livros constantes em processos antigos; k) criação/modernização dos sites das bibliotecas. (Para destacar algumas realizações coletivas)

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