Ano que vem cumpro tempo de serviço, mas poderei me aposentar somente daqui há 9 anos. Consequência de uma politica perversa contra o direito dos trabalhadores com ataque fundamentado: o aumento da expectativa de vida da população tem dado, supostamente, um baque na previdência.
O fundamento, contudo, não é exatamente representativo: as aposentadorias mais altas da classe média longeva, com saúde mantida em dia por bons planos de saúde, têm também seu sustento na contribuição da imensa parcela da classe de trabalhadores de baixíssima renda e saúde consumida pelo trabalho braçal. Saúde que de forma improvável chegará à idade mínima da aposentadoria.
Classe média que sou, não posso reivindicar o título de grande vítima da reforma da previdência. Provavelmente, daqui 9 anos, estarei com saúde, entre livros, fazendo um trabalho que não depende de juventude e usufruindo da saúde que um plano privado pode sustentar.
Se a Medicina evolui com alcance da classe média para cima, a cultura de respeito e colaboração, não. Com isso, a longevidade das carreiras tem criado alguns dilemas não tão óbvios, acirrando choques geracionais em múltiplas facetas, sendo, uma das mais violentas, o empobrecimento da ética nas relações. Pobreza marcada pela escassez dos diálogos e abundância dos monólogos lacradores em redes sociais.
Neste ponto, vemos que o sistema injusto sempre vencerá: junto às macroopressões instauram-se as micro. Não são grandes fortunas em jogo, apenas grandes egos em uma exposição improdutiva e estéril. Fora das redes, estamos todos na pior, desarticulados, oprimidos e cada vez mais solitários.
Na minha terceira reforma da previdência, tenho minha aposentadoria adiada gozando do privilégio de não ser a maior vítima de opressões macroestrturais. Em compensação, das micro violências das relações, acho que ninguém se salvará.
Não sei quantas reformas da previdência ainda me afetarão, quantas tentativas de cancelamento presenciarei, só sei que o ego é o produto mais precioso do capitalismo. Ser solidário, hoje, é o ato mais revolucionário.


“… acirrando choques geracionais em múltiplas facetas, sendo, uma das mais violentas, o empobrecimento da ética nas relações.” Perfeito, disse tudo!
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